quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O Beijo no Asfalto: um clássico de Nelson Rodrigues da década de 60



Por Ágatha Santos

Composta por três atos e treze quadros, a peça teatral "O Beijo no Asfalto", escrita por Nelson Rodrigues, não deixa de ser um marco na história artística brasileira. Lançada em 1960, a obra do jornalista conta a história de Arandir, um homem que assinala a sua sina para sempre quando beija outro homem na boca em plena rua. Escrita especialmente para o Teatro dos Sete, a peça foi mostrada pela primeira vez ao público em 1961, quando várias pessoas abandonaram suas respectivas cadeiras e deixaram  o teatro no meio da exibição.

Voltando à década de 1960, é preciso relembrar a importância de uma obra que levava ao público a problemática de um beijo homossexual no meio da rua. Pouco se discutia sobre o assunto, que era - e ainda é, infelizmente - uma grande polêmica para a sociedade. Ousado e genial, Nelson fez as pessoas engolirem seus pré-julgamentos, com uma peça que permite diversas interpretações e é composta inteiramente por diálogos. No elenco de 1961, estavam grandes nomes como Tarcísio Meira, Fernanda Montenegro e Christiane Torloni, entre outros.

Diz-se que Nelson se inspirou em uma história real para contar a tragédia do personagem principal. A sina de Arandir começa quando ele, num ato de misericórdia, beija um homem prestes a morrer e o repórter mau caráter, Amado Ribeiro, aproveita-se da polêmica para publicar o ocorrido na manchete de seu jornal. Com uma história de vida profundamente ligada ao jornalismo, é evidente a crítica do autor à sua própria profissão. Quantos "Amado Ribeiro" existem por aí?

Arandir vê a sua vida destruída pelo jornalista, que além de publicar o beijo no asfalto como manchete, ainda alimenta uma série de mentiras em seu veículo, como insinuações de que Arandir tinha um caso com o morto e até mesmo que ele teria provocado o atropelamento que antecedeu o beijo. Todos acreditam na versão do jornal e, assim, Arandir perde a esposa, o trabalho e o respeito dos mais próximos, inserido em uma sociedade que prega "a moral e os bons costumes".

Incansável na criatividade, Nelson ainda reserva uma série de polêmicas na narrativa, levando o público à diversas reflexões e o surpreendendo com um final totalmente inesperado. O Beijo no Asfalto, além de Arandir e Amado Ribeiro, também apresenta os personagens Selminha, esposa de Arandir; Dália, irmã de Selminha que é apaixonada por Arandir; Aprígio, o sogro; Cunha, um delegado corrupto; Werneck, assistente do delegado; e a viúva do morto.

Nenhum dos personagens de O Beijo no Asfalto foi colocado ali de maneira aleatória - isso é algo que o leitor pode perceber ao longo da narrativa. Com a sua genialidade, como se não fosse o bastante Nelson Rodrigues, ainda, nos oferece um ato final brilhante que remete à origem de todo o problema discutido na obra: um homem nos braços de outro, sem que exista qualquer relação homossexual que possa ser ali identificada de forma real.

A peça de Nelson tem mais a ver com a hiprocrisia de uma sociedade que acha que sabe a realidade das coisas, sem ter a menor ideia do que acontece nos bastidores, do que com uma relação homossexual propriamente dita. Arandir não é gay, é apenas um homem que tem a vida destruída graças às mentiras inescrupulosas de um jornalista cruel e hipócrita que só pensa em ganhar dinheiro e poder, custe o que custar. Escrito para o teatro, "O Beijo no Asfalto" também virou filme, na década de 1980, nas mãos do diretor Bruno Barreto. A adaptação para o cinema é considerada como uma das obras mais fieis ao livro de todos os tempos.



É assim que Nelson Rodrigues nos oferece, como não poderia ser diferente, uma história que remete à vida como ela é.


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