Por Ágatha Santos
Composta por
três atos e treze quadros, a peça teatral "O Beijo no Asfalto",
escrita por Nelson Rodrigues, não deixa de ser um marco na história artística
brasileira. Lançada em 1960, a obra do jornalista conta a história de Arandir,
um homem que assinala a sua sina para sempre quando beija outro homem na boca
em plena rua. Escrita especialmente para o Teatro dos Sete, a peça foi mostrada
pela primeira vez ao público em 1961, quando várias pessoas abandonaram suas
respectivas cadeiras e deixaram o teatro
no meio da exibição.
Voltando à
década de 1960, é preciso relembrar a importância de uma obra que levava ao
público a problemática de um beijo homossexual no meio da rua. Pouco se
discutia sobre o assunto, que era - e ainda é, infelizmente - uma grande
polêmica para a sociedade. Ousado e genial, Nelson fez as pessoas engolirem seus
pré-julgamentos, com uma peça que permite diversas interpretações e é composta
inteiramente por diálogos. No elenco de 1961, estavam grandes nomes como
Tarcísio Meira, Fernanda Montenegro e Christiane Torloni, entre outros.
Diz-se que
Nelson se inspirou em uma história real para contar a tragédia do personagem
principal. A sina de Arandir começa quando ele, num ato de misericórdia, beija
um homem prestes a morrer e o repórter mau caráter, Amado Ribeiro, aproveita-se
da polêmica para publicar o ocorrido na manchete de seu jornal. Com uma
história de vida profundamente ligada ao jornalismo, é evidente a crítica do
autor à sua própria profissão. Quantos "Amado Ribeiro" existem por
aí?
Arandir vê a
sua vida destruída pelo jornalista, que além de publicar o beijo no asfalto
como manchete, ainda alimenta uma série de mentiras em seu veículo, como
insinuações de que Arandir tinha um caso com o morto e até mesmo que ele teria
provocado o atropelamento que antecedeu o beijo. Todos acreditam na versão do
jornal e, assim, Arandir perde a esposa, o trabalho e o respeito dos mais
próximos, inserido em uma sociedade que prega "a moral e os bons
costumes".
Incansável
na criatividade, Nelson ainda reserva uma série de polêmicas na narrativa,
levando o público à diversas reflexões e o surpreendendo com um final
totalmente inesperado. O Beijo no Asfalto, além de Arandir e Amado Ribeiro,
também apresenta os personagens Selminha, esposa de Arandir; Dália, irmã de
Selminha que é apaixonada por Arandir; Aprígio, o sogro; Cunha, um delegado
corrupto; Werneck, assistente do delegado; e a viúva do morto.
Nenhum dos
personagens de O Beijo no Asfalto foi colocado ali de maneira aleatória - isso
é algo que o leitor pode perceber ao longo da narrativa. Com a sua genialidade,
como se não fosse o bastante Nelson Rodrigues, ainda, nos oferece um ato final
brilhante que remete à origem de todo o problema discutido na obra: um homem
nos braços de outro, sem que exista qualquer relação homossexual que possa ser
ali identificada de forma real.
A peça de
Nelson tem mais a ver com a hiprocrisia de uma sociedade que acha que sabe a
realidade das coisas, sem ter a menor ideia do que acontece nos bastidores, do
que com uma relação homossexual propriamente dita. Arandir não é gay, é apenas
um homem que tem a vida destruída graças às mentiras inescrupulosas de um
jornalista cruel e hipócrita que só pensa em ganhar dinheiro e poder, custe o
que custar. Escrito para o teatro, "O Beijo no Asfalto" também virou
filme, na década de 1980, nas mãos do diretor Bruno Barreto. A adaptação para o
cinema é considerada como uma das obras mais fieis ao livro de todos os tempos.
É assim que
Nelson Rodrigues nos oferece, como não poderia ser diferente, uma história que
remete à vida como ela é.

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